30/6/2014

Palavras Palabras - 2014

O recital Palavras Palabras em sua nova versão (2014), com poemas meus em português e espanhol aconteceu neste sábado 28 de junho, às 19 h no Auditório Barbosa Lessa, do Centro Cultural CEEE Erico Verissimo - Porto Alegre, Brasil.
Os poemas foram agrupados por afinidade temática: as Palavras, o Cotidiano, a Dor, o Amor e a Poesia. 
No grupo a Dor apresentei o meu pai, Julio Moncada, poeta chileno falecido no exílio em Paris em 1983. Dele li Destierro (1958) em espanhol e uma tradução minha ao português de El desconcierto (A perplexidade) incluído no livro Poemas de Malvín (1967). Agradeço, por mim e pelo meu pai, a emoção e as palmas recebidas nesse momento.
Também incluí nesse grupo o poema Meus dias de Clarice Almada, heterônimo feminino de João Antônio Pereira.
Publicarei algumas fotos na página do blog (Fotos), um pouco mais adiante porque o trabalho me reclama, mas foi ótimo!


12/6/2014

A lágrima - Lota Moncada.

Ilustração: Felipe Caldas
Poema ilustrado por Felipe Caldas e traduzido ao inglês pela poeta e tradutora, Cristina Macedo e  ao espanhol por mim, integra o Catálogo da Exposição Poesia Ilustrada (entre 10.6.2014 e 15.07.2014) dentro do Festival de Poesia AEDO  Cliquem no link para ver a programação e mais informações.



A lágrima

O sol está gelado.
Empurrado pelo vento
junho se insinua inverno.

A coreografia ensaiada
da última lágrima desliza
silenciosa e sensual
no canto da boca da noite.










Tear

The sun is gelid.
Pushed by the wind
June insinuated winter.

The tested choreography
of the last tear slides
Silent and sensual
ont the corner of the nigth mouth

(Tradução: Cristina Macedo)




 La lágrima

El sol está helado.
Empujado por el viento
junio se insinúa invierno.

La coreografía ensayada
de la última lágrima desliza,
silenciosa y sensual,
por el borde de la boca
de la noche.
                
(Tradução: Lota Moncada)


Lua de cidade - Lota Moncada



luz de faróis
verdes brancas
vermelhas alertas
fios enlouquecidos
cortando o ar
vigia o helicóptero
ou espia e ninguém
saberá se nada 
ou tudo 
é o que parece
ou será
mas apesar dos
sons profusos 
brilhos nada sufoca 
nem poderá a serena 
determinação 
de uma lua de cidade


8/6/2014

A veces pienso en la muerte - Lota Moncada - Às vezes penso na morte


Esta es la versión en español de mi poema, escrito originalmente en português, a pedido (vehemente) del amigo, maestro y escritor, Wilson Mesa. Espero que te guste Wilson, y gracias!


A veces pienso en la muerte.
Muchas veces pienso en ella.
Hembra de misterio infinito,
fiel y perenne sombra,
intermitente grito,
silencio pleno de
pesadilla y repulsa.

Algunas veces nos miramos.
Aún sin ver nos miramos.
Yo impotente, ensayando
señales, más lejos, más tarde,
fuera, fuera.
Ella sin risa, sin dolor,
sin lágrima, sin paz,
ahora.

¿Pensará en mí también?
¿O apenas, paciente,
aguarda un descuido,
un desisto, un desliz,
un instante cualquiera
marcado quién sabe dónde,
no se sabe cuándo,
por quién sabe quién?

Entonces veré sus ojos.
Andaremos juntas,
desconocidas íntimas,
podré contarle que 
muchas veces pensé en ella,
algunas la busqué,
otras tantas la odié,
que somos parecidas y
aunque encogida
me mantuve alerta.

Y ella dirá – tal vez –
con su voz sorda,
no tengo ojos,
ni recuerdos,
no te engañes
ni quieras engañarme,
no puede haber sentimiento
entre nosotras.


Às vezes penso na morte.
Muitas vezes penso nela.
Fêmea de mistério infinito,
fiel e perene sombra,
intermitente grito, 
silêncio prenhe de 
pesadelo e repulsa.

Algumas vezes nos olhamos. 
Mesmo sem ver nos olhamos.
Eu impotente, ensaiando 
sinais, mais longe, mais tarde, 
vá embora.
Ela sem riso, sem dor,
sem lágrima, sem paz, 
agora.

Pensará em mim também? 
Ou apenas, paciente,
aguarda um descuido,
um desisto, um tropeço, 
um  instante qualquer
marcado quem sabe onde,
não se sabe quando,
por quem sabe quem?

Então verei seus olhos.       
Andaremos juntas, 
desconhecidas íntimas,  
poderei contar que 
muitas vezes pensei nela,
algumas a busquei,
outras tantas a odiei,
que somos parecidas e 
mesmo encolhida
me mantive à espreita. 

E ela dirá - talvez- 
com sua voz surda,
não tenho olhos 
nem recordações,
não se engane 
nem queira me enganar,
não pode haver sentimento 
entre nós.

30/5/2014

Dia 28 de junho: "Palavras de Lota e João!"


Poemas, canções, conVersa!

Dentro do Festival de poesia AEDO, no dia 28 de junho de 2014, às 19 h no Auditório Barbosa Lessa do Centro Cultural CEEE Erico Verissimo - 
Porto Alegre.

Com João Antônio Pereira, poeta e músico, meu parceiro neste espetáculo, falaremos, leremos e (ele) cantará composições suas!
Venham, além de tudo, todas as atividades do AEDO têm entrada franca!



4/5/2014

Sai solidão y Vete soledad - Lota Moncada

Sai solidão,
já não quero
teu silencioso chamego
solta minha mão
não te preciso, quero mais
o despudorado riso,
o contrário do aconchego
audaciosos dentes
emaranhadas línguas
cadências que afaguem,
vorazes,
na escuridão seminua
de qualquer lugar,
o meu peito urgente.
Sai solidão,
vê se me esquece
já não sou mais aquela
que resignada espera,
patético arremedo de gente,
um olhar de esguelha, um favor.
Sou a mesma e outras.
Enjoei da janela, do fogão,
da cama vazia, da cela,
da dor intermitente
à espera do laço
esfacelando a alegria
arrastando o meu passo.
Acabei aprendendo
a polir as escamas,
a limpar o jardim,
eivado de penas,
a talhar meu diamante
por duro que seja,
e embora às vezes
de alguma lição me descuide,
vai solidão, bem tranquila,
me solta enfim,
que a tua ausência
já não me aniquila.


Vete soledad
ya no quiero
tu silencioso apego
suelta mi mano
no te necesito, quiero sí
la desvergonzada risa,
el revés del sosiego
los audaces dientes,
enmarañadas lenguas
cadencias que acaricien,
voraces,
en la oscuridad semidesnuda
de cualquier lugar,
mi pecho urgente.
Vete soledad,
a ver si me olvidas
ya no soy aquella
que resignada espera,
patético simulacro de gente,
una mirada de lado, un favor.
Soy la misma, y otras.
Hastiada de ventana, patio,
de cama vacía, calabozo,
del dolor intermitente
a la espera del lazo
destrozando la alegría
arrastrando mi paso.
Terminé por aprender
a pulir las escamas,
a limpiar el jardín,
colmado de penas,
a tallar mi diamante
por duro que sea,
y aunque a veces
de alguna lección me descuide,
vete soledad, bien tranquila,
déjame en fin,
que tu ausencia
ya no me aniquila.

27/4/2014

Hoje amanheci Rosa... De Guima!

Para ler, clique na imagem.


"Um chamado João" - Carlos Drummond de Andrade  22/11/1967, três dias depois da morte de João Guimarães Rosa.

"João era fabulista?
fabuloso?
fábula?
Sertão místico disparando
no exílio da linguagem comum?
Projetava na gravatinha
a quinta face das coisas,
inenarrável narrada?
Um estranho chamado João
para disfarçar, para farçar
o que não ousamos compreender?
Tinha pastos, buritis plantados
no apartamento?
no peito?
Vegetal ele era ou passarinho
sob a robusta ossatura com pinta
de boi risonho?

Era um teatro
e todos os artistas
no mesmo papel,
ciranda multívoca?
João era tudo?
tudo escondido, florindo
como flor é flor, mesmo não semeada?
Mapa com acidentes
deslizando para fora, falando?
Guardava rios no bolso,
cada qual com a cor de suas águas?
sem misturar, sem conflitar?
E de cada gota redigia nome,
curva, fim,
e no destinado geral
seu fado era saber
para contar sem desnudar
o que não deve ser desnudado
e por isso se veste de véus novos?

Mágico sem apetrechos,
civilmente mágico, apelador
e precipites prodígios acudindo
a chamado geral?
Embaixador do reino que há por trás dos reinos,
dos poderes, das
supostas fórmulas
de abracadabra, sésamo?

Reino cercado
não de muros, chaves, códigos,
mas o reino-reino?
Por que João sorria
se lhe perguntavam
que mistério é esse?

E propondo desenhos figurava
menos a resposta que
outra questão ao perguntante?
Tinha parte com... (não sei
o nome) ou ele mesmo era
a parte de gente
servindo de ponte
entre o sub e o sobre
que se arcabuzeiam
de antes do princípio,
que se entrelaçam
para melhor guerra,
para maior festa?

Ficamos sem saber o que era João
e se João existiu
de se pegar."

15/4/2014

Quando for a hora - Lota Moncada (14.4.14)

dê-se tempo
tome tento
pule dentro 
ame solto
abra o peito
vire a mesa
doe um tanto

mas atine logo 
sinta no corpo
o desencanto 
e salte fora 
sem pena
sem pranto 
quando for a hora


11/4/2014

Celebrando (como siempre!) el cumpleaños de mi padre (Santiago de Chile, 12.4.1919 - París, 19.7.1983)


En 1943 mi padre, Julio Moncada, entonces con 24 años, publicó su primer libro de poemas, Las voces (Ediciones Americanas “Andes”) en su ciudad natal, Santiago de Chile.
Mañana 12 de abril de 2014 estaría cumpliendo 95 años, y como todos los años el recuerdo de su dulce y algo melancólica figura, de su ternura infinita y el enorme amor por su pueblo, su gente y esta que les escribe, su hija, me llevan a hacerle un pequeño homenaje que deseo compartir con mis amigos y algunas de las personas que lo conocieron. 
Y a aquellos que no lo conocieron, aquí les dejo algo de su alma.




Habito un país distante – Julio Moncada 

Vivo en un país distante.
Allí donde el otoño mueve el tiempo.
Habita mi alma fruta y pájaro;
mujer, hélice, recuerdo.

Todo lo que sea huída.
Todo lo que sea ausencia.
Abro la puerta cada día
para que pase la tristeza.

A veces muero lentamente.
A veces vivo silencioso.
Tengo la cábala que abre
un mundo claro y melodioso.

Como cuidador de estrellas
y fino pastor de la tarde
comprendo voces que no entiende 
la sencilla gente del valle.

Cuando me muera me he de ir.
O he de volver. ¡Y quién lo sabe!
Bien sé que siempre estuve ausente
habitando un país distante.

14/3/2014

Sísifo y yo - Lota Moncada

Cerro arriba voy 
cargando la piedra
que debe rodar.
Ah, Sísifo, a diario
matando una muerte
- de tantas que hay -
para poder respirar.

Absurda la vida,
pesada la roca,
¿qué sentido tiene
morder ese polvo,
volver a empezar?
Seguir a la zaga,
guarnecida tan solo
de esperanza lúcida,
morir disconforme
- consciencia adquirida -
cargando mi piedra y
que vuelva a rodar.



9/3/2014

Figura de linguagem - Lota Moncada


A antítese da tese
antípoda próxima,
síntese sem resumo,
verso ao inverso.
O que sou, afinal,
senão a palavra
que se lê, ou não,
explícita ou calada,
inteligível e hermética
a que não se explica?
Às vezes elipse,
às vezes pleonasmo,
geralmente hipérbole.

Quem sou, afinal?
Alquimista fugaz,
breve e taciturna,
que faz silepse, mas
nem sempre sinapse.
Tudo isso, e mais.
Há sempre mais detrás
das mil figuras de linguagem,
algumas inventadas,
parafraseadas,
artificiosamente urdidas,
mas, com certeza,
prosopopeia jamais!




28/2/2014

Vejez - Alberto Centurião (traducción libre, Lota Moncada - 2009)




de repente
cuando menos se espera
llega el día largamente esperado
más temido que deseado
en que eres el más viejo de tu clan
de tu estirpe el más remoto ascendente
por el solo motivo que todos los otros
que te antecedieron en la vida
también antes de ti se retiraron
por el cuentagotas de la muerte
y te tienes que habituar a un nuevo papel
en adelante serás el anciano
a presidir el consejo de ancianos
el abuelo el padre el tío el viejo
el consejero el caduco
el más mimado inútil 
aquél que todos quieren o repelen
hasta que por vacancia
se cumpla el linaje sucesorio
porque en fin te volviste
la más reciente entre las ausencias

colgadas de la memoria

9/2/2014

Uma parte de mim é todo mundo... - Lota Moncada

Aqui deixo a bela montagem e edição do meu texto e o poema do Gullar que podem ler aqui debaixo, pelo amigo e grande profissional Wasyl Stuparyk:


Nunca tive grande preocupação em escrever para este ou aquele público  - no máximo alguma vez na minha vida escrevi para alguma pessoa em especial. Não penso muito sobre isso, simplesmente escrevo.
Sou uma pessoa. Mas,uma pessoa-mulher e o meu discurso parte dessa inegável realidade, com a qual estou bem à vontade. Parece lógico que a minha escrita, poesia ou prosa, tenha identificação com e no feminino.

Ultimamente tenho reparado mais, e a partir daí feito umas "estatísticas" - não que eu entenda do riscado, a matemática nunca foi o meu forte, mas os amigos e mesmo alguns amigos de amigos, e também definitivos desconhecidos, acabaram me ajudando com suas "curtidas e/ou comentários" - assim veio a confirmação: aproximadamente 75 % das pessoas que curte, carrega, compartilha ou comenta é mulher. E suponho que faz isso porque se identifica com o que escrevo ou com a leitura aberta do sentir expressado nos escritos. Mas há outros anseios... E outras leituras!

O que me leva a uma nova reflexão que deixo para outro dia, não temam!

Mas o que me levou a escrever isto hoje?  Nada muito grave, motores da vida. Algumas questões que têm surgido, algumas perguntas, alguma incompreensão, minhas próprias dúvidas (que sim, são várias!) quanto à comunicação, estilo, idiomas, formas, e por vezes, conteúdo.
E também a pergunta cuja resposta não me deixa nunca completamente satisfeita: por quê?

A minha escrita me traduz. Ou serei eu a traduzir-me pelo que a escrita fala, ou me permite falar?   

Cedo o espaço a um poeta e poema que são uma referência importante na minha vida brasileira e nas minhas profissões, Ferreira Gullar e "Traduzir-se", e cada um que leia/veja /ouça como quiser/puder, segundo suas circunstâncias!

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -

será arte?

12/1/2014

Preguntas - Lota Moncada


¿Quién sino yo
en busca de mi otro,
podría ser tan loco
a punto de saltar
sin red, sin miedo 
- o con él - pero volar,
al infinito, al fondo
de ese cielo escurridizo?

¿Quién sino tú,
huyendo de ese otro
respondería, y apenas, 
con obstinado silencio,
borrando sin delicadeza,
desdibujándote,
alejándote, oscilante,
pero a paso ligero,
entre turbios adioses?

¿Quiénes sino tú y yo,
resquebrajado nosotros,
aún así ilusos,
creería que sangrando 
venas y arterias 
podrían contenerse
los insanos torrentes
de una pasión desbocada?

¿Qué hacer con las manos
rebosantes de puro vacío,
con la solitaria boca 
los anegados ojos?

¿Y qué, con mi cuerpo
ansioso y dispuesto
a entregarse entero,
rotas las cadenas 
de un pasado yermo?

¿Qué hacer ahora
que pasó el espanto?

Sepultar los restos,
ahogar el llanto
que insistente sube
y se desencadena
como una rotunda 
cascada de pena.
Aquietar el pecho
levantar cabeza,
conjugar pretéritos,
seguir al acecho,
que el acaso sorprende
a cada vuelta de esquina 
y pequeñas rendijas
te enciende la vida.

Hay que andar despierto,
huelgan las preguntas, 
que el futuro deje de ser 
tan solo un tiempo.