13 ene. 2016

Algures quiçá - L. Moncada





olho pra trás
você se desfaz
na turva memória
que teima em passar

                       algures quiçá

giro o olhar  
órfão de ti
por todo lugar
do bar ao barco
prestes a zarpar
do mar à mata
detrás dos rochedos   
debaixo da cama        
                     
                       alhures talvez

músculos tesos
aguço o ouvido
fora os gemidos
do meu coração
tão somente o eco
embalando a paixão      
e repetindo sem nexo
te iludes te iludes
amores já não

                    nenhures nenhures









8 ene. 2016

Espiral - L. Moncada (español)

un  día  después  de  otro
caigo  me  levanto
sufro  lloro  me  espanto
una  repentina  caricia
memoria  remota
un  abrazo  un  cariño
río  no  duermo  sueño
grande  se  vuelve  pequeño
pequeño  huye  en  el  tiempo
sonrisa  abierta  hace  señas
descubro  siento  me  alegro
piedra  rodando  infinito  girar
un  día  después  de  otro




25 oct. 2015

Queria tanto - L. Moncada

queria tanto
ter palavras
brandas tenras
meigas doces
palavras lhanas
de esperançar
palavras amenas
para ninar

mas qual...
tudo o que
a garganta abriga
é grito silente
o avesso do verso
é fadiga  é ritual
de lenta despedida



9 oct. 2015

Carícia borboleta - Lota Moncada (2008)

Escondida de todos os olhares
aqui, onde minhas mãos a protegem
tenho uma carícia.

É suave, alada, e tem da minha pele
o calor trêmulo que a faz humana.
Voará logo, eu sei, pressinto.
Inquieta, saltita entre meus dedos
buscando pousar em teu corpo,
fazer parte da tua alma.
Me olhará então, desde teus olhos,
voltará a mim em teu sorriso,
e novamente, entre minhas mãos
- doce, colorida, morna, nunca minha -
baterá asas de esperança deixando
um sopro de pele, um sorriso leve,
um coração alado.

27 sept. 2015

O silêncio das paredes - L. Moncada


E falo com elas, teimosa falo,
mas nada… Somente o silêncio.

Às vezes, uma mancha disforme,
umidade, camaleônico bolor
e seu hálito, me soam resposta.

E pergunto, obstinada pergunto,
aguço o ouvido… Só o silêncio.

Por instantes, o som surdo
de passos perdidos, pegadas
sem marca, parece responder.

E velo, insone vigio,
plena de escuta e mutismo.

Um segundo passa como corredeira,
arrasa fiapos de vida.  Em seu lugar,
ausência, isolamento, medo.

E ainda assim, espero, vitimizada
espero, me odeio e espero. Em silêncio.

12 sept. 2015

3 ago. 2015

Contra los puentes levadizos - Mario Benedetti


Poema 3

Puedo permanecer en mi baluarte
en ésta o en aquella soledad sin derecho
disfrutando mis últimos
racimos de silencio
puedo asomarme al tiempo
a las nubes al río
perderme en el follaje que está lejos

pero me consta y sé
nunca lo olvido
que mi destino fértil voluntario
es convertirme en ojos boca manos
para otras manos bocas y miradas

que baje el puente y que se quede bajo

que entren amor y odio y voz y gritos
que venga la tristeza con sus brazos abiertos
y la ilusión con sus zapatos nuevos
que venga el frío germinal y honesto
y el verano de angustias calcinadas
que vengan los rencores con su niebla
y los adioses con su pan de lágrimas
que venga el muerto y sobre todo el vivo
y el viejo olor de la melancolía

que baje el puente y que se quede bajo

que entren la rabia y su ademán oscuro
que entren el mal y el bien
y lo que media
entre uno y otro
o sea
la verdad ese péndulo
que entre el incendio con o sin la lluvia
y las mujeres con o sin historia
que entre el trabajo y sobre todo el ocio
ese derecho al sueño
ese arco iris

que baje el puente y que se quede bajo

que entren los perros
los hijos de perra
las comadronas los sepultureros
los ángeles si hubiera
y si no hay
que entre la luna con su niño frío

que baje el puente y que se quede bajo

que entre el que sabe lo que no sabemos
y amasa pan
o hace revoluciones
y el que no puede hacerlas
y el que cierra los ojos

en fin
para que nadie se llame a confusiones
que entre mi prójimo ese insoportable
tan fuerte y frágil
ese necesario
ése con dudas sombra rostro sangre
y vida a término
ese bienvenido

que sólo quede afuera
el encargado
de levantar el puente

a esta altura
no ha de ser un secreto
para nadie

yo estoy contra los puentes levadizos.

13 jul. 2015

Resenha sobre Palavras Palabras (Curitiba, 19.7.2012) de Maria Benites Gusman

Sucesso no Recital de Poesias ocorrido em 19/07/2012 em Curitiba, PR. no Miniauditório do Teatro Guaíra. 


Aconteceu ontem um RECITAL DE POESIA, nesta Curitiba - PR, no MiniTeatro Guaíra, com a participação exclusiva da poetisa Lota Moncada, denominado PALAVRAS, PALABRAS. 
Foram momentos de reflexão e encantamento, onde a autora revelou a intenção de valorizar as palavras e os gestos como recursos da comunicação, revelando sentimentos. Soube definir com elegância, graça e sabedoria, as etapas de vida do ser humano, a partir da infância, maturidade e as implicações que se revelam na terceira idade. Sua poesia destina-se a todos que apreciam o belo; agrada a todos, eis que inclui exemplos reais de vida, a partir de como a poesia se revela simples e complexa ao mesmo tempo..."tal e qual o esperto felino que brinca com o novelo de lã, desfazendo-o com a leveza dos seus toques" e tão logo, é preciso recolhê-lo para o recompor novamente.


Especialmente atentos, o recital foi abrilhantado por uma clientela elitizada, convicta de que haveria uma boa oferta literária, pelo reconhecimento de Lota Moncada . Podemos concluir que a poetisa traz consigo a força da inspiração; uma mulher segura de si, com sentimentos intensos e domínio das mensagens que transmite. Enfim, uma poesia reveladora de conceitos, valores e atitudes, peculiares a todos nós.  


Maria Benites Gusman / Crítica em Artes. 20 de Julho de 2012.

12 jul. 2015

Lua cheia / Luna llena - poema/letra: Lota Moncada /música: Ronald José Magalhães

Desenho de Troche
Mais um poema meu que um amigo transforma em canção! 

Apresento a vocês, em primeira mão, o "chorolero" - mistura de choro e bolero, nas palavras do compositor, músico, poeta e amigo 
Ronald José Magalhães :  Lua cheia / Luna llena 
(sim, é em português e espanhol!) sobre poema meu.

Gostei muito! Ele captou muito bem a discreta 
melancolia do poema, e esse arranjo de flauta, 
do Jerônimo Colbert Bello, caiu como uma luva! 

Curtam, divulguem, peçam bis! 


27 jun. 2015

Desconsuelo - Lota Moncada ( a Uruguay - 27.6.1973)


Para escuchar el poema grabado por mí: Desconsuelo

No, por favor,
no me consueles
déjame sufrir
que es noble la causa
que la pena es limpia
y aligera el alma.
La fina tristeza
como lluvia mansa
lava, prepara, encanta,
desliza suavemente
por ojos, boca, garganta,
dejando a su paso
sólo miel amarga.

Por favor, abrázame,
no me abandones
cuando, como alud,
sobrevenga el llanto
arrastrándolo todo,
corazón de luto
vientre desgarrado
tropel en el pecho
alma al descubierto.

Y cuando por fin
se cieguen mis ojos
para no ver más
el hermano muerto,
la tragedia inútil,
la esperanza huyendo,
permite que calle
ya secos los labios,
descanse la mano
de ademán abierto
y rehaga el paso
que se ha vuelto lento.

in Una isla en la isla (Premio Internacional de Poesía - Latin Heritage Foundation - EUA)

Da Série Kuasi haikai XLIV - Lota Moncada


19 jun. 2015

Saí voar - Lota Moncada

Versão em português do original em espanhol do meu poema Salí a volar (depois da foto).

Hoje não estou aqui.
Não estou por nada.
Não estou por ninguém.
Dissolveu-se o horizonte
e fui embora, de repente,
deixando ajeitados
- no meu lugar habitual -
roupa e sapatos, lápis
e papel. Apaguei a luz
e saí voar, por não
saber onde desaguar.

Hoje, nem mesmo estou em mim.
Deixei um cartaz: Voltarei?

Foto do recital Palavras Palabras, realizado no Miniauditório do Teatro Guaíra, durante o III CEPIAL: http://cepial.org.br/programacao/programacao_cultural  Curitiba, julho de 2012. Foto: Kely Kachimareck.


Hoy no estoy aquí.
No estoy por nada.
No estoy por nadie.
Se me disipó el horizonte
y me fui de repente,
dejando acomodados 
- en mi lugar habitual -
ropa y zapatos, lápiz 
y papel. Apagué la luz 
y salí a volar, por no saber 
donde desaguar. 

Hoy, ni siquiera estoy en mí.
Dejé un cartel: ¿Volveré?


Da Série kuasi haikai XLIII - L. Moncada

Clique na imagem para ampliar!

17 jun. 2015

Esqueci - L. Moncada



esqueci da tua pele
a umidade
no árido desencanto
e a frágil memória
(mal dos tempos
 embora em versos)
lhe esculpiu o epitáfio











4 jun. 2015

CineMito delirante - L. Moncada

Tento, neste instante, pentear os cabelos da Medusa, de olhos bem fechados e sem espelho -sem essa de virar pedra! - esperando por Perseu um tanto inquieta.

Penso – mas não desisto, já que pensar é gratuito - se as asas do Pégaso teriam sofrido algum dano, ou se perderia a hora abrindo a fonte Hipocrene a coices, o seu lado cavalo, afinal, alguma vez tem de aparecer!  

Bem, Andrômeda não perde por esperar, quando Perseu chegar virá exuberante de inspiração. Aman!

Ó, meus deuses! Eu é que ando precisando subir ao Hélicon! Beber a água das suas fontes, dançar um pouco também não seria ruim, viajar pelo mítico universo, bater um papo com as Musas...

O resto do elenco, já pronto, emite sinais de impaciência, se irrita, fuma...
Ainda bem que há um Sir (ele ainda vira Lorde!) no papel de Zeus. Além de bom ator, um perfeito cavalheiro!

Pelo andar da carroça, ou viro pedra e não rola (vamos dar uma trégua ao Sísifo...) ou a Fúria dos Titãs vai ter que se aquietar até 1981! Ou pior, esperar pela terrível homenagem aos Cavaleiros do Zodíaco do remake de 2010, esse sim, um titânico fracasso!

Mas também, quem me manda ser continuísta de cinema! Essa coisa de manter a harmonia não me fala ao coração!

Outra opção é deixar de querer ser estrela e virar logo constelação!

Sir Laurence Olivier, sendo Zeus no filme "Fúria de titãs" (Inglaterra, 1981),
em um intervalo da filmagem,  não resiste a uma bela xícara de chá.





3 may. 2015

Voy y vengo - Lota Moncada (2.5.15)



A cada tanto voy 
y vengo, plena de ilusión, 
pompa de mal jabón 
que se deshace 
al primer soplo 
al primer golpe 
al primer mal rato.

A cada tanto vuelvo 
y llego, tan solo plena, 
corazón ligero, alma delicada 
que se disipa 
al menor quejido 
al menor revés 
al menor olvido. 

Y si vuelvo y me disipo, 
y si voy y me deshago 
¿qué es esto sino un vuelo 
ciego, sordo, mudo, trunco, 
sin alas, sin poso, sin estro? 

10 abr. 2015

Só um rito - Lota Moncada

um mesmo poema
mil vezes reescrito
talvez isso seja paixão
ou apenas não saber
o que dizer como fazer
onde pôr a vírgula se há
onde caberá o ponto final
espera-se reflexão maestria
beleza poesia estranhamento
e por quê?  É só um rito
somente um poema
verbo de um reservado grito





29 mar. 2015

Meu aniversário de novo... "Sorte minha"

Dia 27 de março fiz aniversário, de novo! Um aniversário de "grande número".

Grande número de anos, de experiências, grande número de peças de teatro, de viagens, grande número de amigos e de afetos!

Fiquei pensando, dias antes do "evento" (que coincide com a minha mais fiel paixão, o Dia Internacional do Teatro), que estou ficando velha. De fato, estou. Estamos todos, os que não saíram do palco antes. E lamentavelmente, são muitos.

Mas, sabem? Acho que me enganei. Estou é ficando rica, bem mais rica! Nestes 67 anos tenho tido muita sorte!

A primeira já nem sorte é, é privilégio: ter podido escolher o que queria fazer o resto da minha vida!  E não mudaria uma vírgula disso, mesmo que pudesse. Embora os tais problemas, as pobrezas, as incertezas, algumas decepções, e vários ponto e vírgula a mais!

E a segunda, esta sim, sorte da boa, a de ter conseguido fazer e manter, ao longo destes muitos anos, amigos inestimáveis, sem preço mesmo (e sem cartão de crédito, que nem tenho!).
Parceiros de vida, afetos sem prazo de validade.

E cada qual a sua maneira, manifestou esse carinho dia 27, desde o seu canto a maioria - e bota cantos nisso, que tenho amigos espalhados por boa parte do planeta, do Chile  ao Brasil, passando pelo Uruguai, pela Espanha, Japão, os EUA, Portugal, Suecia, México, Holanda, França, Argentina…  “Yo tengo tantos hermanos que no los puedo contar”!

Aqui lhes deixo uma amostra do que quis dizer aí em cima, com esse papo todo! Espero que não tenham se cansado e leiam até o fim, vale a pena!

E aos mais de 300 amigos que deixaram suas mensagens, e que, juro, tentei reponder um por um, mas devo ter pulado vários, porque, vocês entendem né!? a idade vem também com suas mazelas, a minha gratidão sincera e minha amizade incondicional!  

*****

“Das páginas que escrevi, o vento levou metade. Outras se foram para nunca mais. Um bom tanto os amigos levaram e fizeram bom proveito. Outro tanto está comigo desde sempre, essas não saem do peito, pois coisa do amor é não deixar só o coração de quem se ama. Leia no primeiro comentário e ache um trevo com as minhas milhares de folhas.


SORTE MINHA

.
para a Lota Moncada e Marcos Barreto, aniversariantes do dia.

.
foi das muitas lindezas que encontrei no mundo

que retirei o som da minha poesia

gotas tamborilavam, chuva a melodia,

pensar foi o meu sentimento mais profundo
.

tudo de bom que havia em meu olhar fecundo

foi para mim palavra santa e estrela-guia

e não foi sonho a rima que me transcendia

era eu que em espírito chegava ao fundo!
.

sorte minha saber-me fluido como um gozo

foi assim que nasci: para viver nos versos

e se alguns reverberam outros universos

não reparem, estou sempre belo e formoso!
.





22 mar. 2015

Por qué - Idea Vilariño (Montevideo, 1920 - 2009)

Por qué
aún
de nuevo
vuelve el viejo dolor
me rompe el pecho
me parte en dos
me cubre de amargura.
Por qué
hoy
todavía.

12 mar. 2015

Autobiografia autorizada e incompleta - L. Moncada

Já fui Alice, a das maravilhas,
com coelho, rainha e quetais.  
Única filha e neta de pais e avós.
A que se chateava na escolinha
onde só havia crianças brincando...
Eu queria mais. Voar, inventar o mundo,
ler, escrever, aos três anos apaixonada
pelo cabelo de anjo de um literato famoso,
amigo e bem mais velho que meu pai... 

Já fui Andrômaca a do Heitor, Diana
a caçadora, Libel a sapateirinha,
a Marina apaixonada pelo seu playboy,
a Donzela filha do pai fera, a estrangeira
- e com sotaque - do Show de jornal,
a Garota do tempo, a do Lance maior
rodeada de tão boa companhia,
a velha Maria beata nordestina aos 20,
Maria Josefa a mãe de Bernarda aos 25,
Maria Rosa irmã de outra Maria, a Bueno,
Alzira a que enterramos em Portugal
com a pompa  e circunstância merecidas. 
Amanda, Alaíde, a esposa, a puta, a louca,
a boa, a vingança, a morte...
Fui chilena, uruguaia, brasileira, húngara
francesa, italiana e até norte-americana,
embora meu norte fosse sempre o sul.

 Já fui mulher de tantos homens!
Do Nelson, do Bivar, do Prata, do Díaz,
de alguns gregos - bem clássicos eles -
do Molière, Safiotti, do Millôr, Sarlòs,
do Lorca, do lírico Williams, do Ionesco
e seu puro senso de humor, negro.
Da poesia sempre.
E de algumas mulheres também.

Assim, revendo, diria que fui infiel.
Promíscua, sem preconceitos,
não disse não a ninguém, a nada. Ou quase.
Mas quando fui entreguei-me inteira,
um tantinho masoquista talvez,
mudei tantas vezes nestes tantos anos
que por momentos o estranhamento
foi a minha pele, minha alma, meu quem é?

Espelho, espelho meu, cadê aquele eu,
meu velho, imperfeito e confortável conhecido?
Mas o espelho sorria e mandava me virar:
veja seus muitos eus, você não queria voar?
Eles voam por você, espalhados e espalhando
dor, prazer, sonhos crescidos, paixão desbordada,
atemporal, ontem, hoje, amanhã, e depois e depois...
E o pior - ou o melhor – é que tinha razão.
Fragmentada, invadida, insegura, na farsa, no riso,
no drama, numa esquina da vida, era eu e meu voar
e se quer saber, eu fui feliz.

                                                   E sabia.


11 mar. 2015

Vete soledad - L. Moncada (poema e interpretación)


Vete soledad, ya no quiero
tu silencioso encanto.
Suelta mi mano
no te necesito. Quiero sí
la impúdica risa,
el revés del sosiego,
audaces dientes,
enmarañadas lenguas,
cadencias que acaricien,
- voraces -
en la oscuridad semidesnuda
de cualquier lugar,
mi pecho urgente.
Vete soledad, a ver si te alejas.
Ya no soy más aquella
que resignada espera
- patético simulacro de gente -
una mirada de soslayo, un favor.
Soy la misma. Y otras.
Me harté de ventana, de patio,
de cama vacía, de celda,
del dolor intermitente
a la espera del lazo,
destrozando la alegría,
arrastrando mi paso.
Terminé por aprender
a pulir las escamas,
a limpiar el jardín
colmado de penas,
a tallar mi diamante
por duro que sea,
y aunque, a veces,
de alguna lección me descuide,
vete soledad, bien tranquila,
suéltame en fin,
que tu ausencia
ya no me aniquila.

7 mar. 2015

Poeta velho - Alberto Centurião (interpretação, Lota Moncada)



quero ser um poeta velho
velho que nem Cora Coralina
Walt Whitman Drummond Thiago de Mello
velho que não entrega os pontos
Manoel Bandeira João Cabral
velho feio careca enrugado encarquilhado
que chega a ser bonito de tão velho
já que não morri de tuberculose adolescente
nem de cirrose aos quarenta
agora quero ir além dos setenta
pra destilar aquela poesia envelhecida
decantada requintada
do cerne dos ossos reumáticos
de Mário Quintana
vagarosamente apurada depurada
com sabor de vinho velho
daqueles que a rolha esfarela
e a borra gruda no vidro da botelha
quero ser um poeta tão velho
que a gosma da vida vaze dos tumores
enquanto a poesia límpida pura saborosa madura
estale na língua para deleite do espírito
e a velha garrafa enfim seja reciclada

... - Lota Moncada