10 sept. 2012

A perplexidade - (El desconcierto) Julio Moncada, versión al portugués de Lota Moncada

O diretor do jornal disse-me hoje que eu deveria ser enérgico e fortíssimo para condenar não sei que abusos nos impostos e a não sei qual político, que estava enfiando a mão nos cofres públicos. 
Eu pus cara de seriedade, compus o gesto, firmei o sobrecenho rotundo e jurei que condenaria com total ferocidade tais desmandos. 
Pedi-lhe que me deixasse escrever em casa a catilinária, porque lá, no silêncio, chegariam melhor a minha cabeça os xingamentos, floresceriam os argumentos condenatórios, poderia exercitar com amplidão e felicidade minhas idéias sobre a justiça humana. 

Deixou-me ir o diretor. Mas quando cheguei a minha casa, a tarde estava se deitando murmurante sobre os telhados, algum gato amarelo passeava com seu orgulhoso rabo empinado, umas crianças temerosas atravessavam a rua, de mãos dadas, olhando para todos os lados com seus grandes olhos inocentes. E esqueci-me do político venal, da justiça, da privilegiada condição do meu ministério, sentado na varanda, vendo ao longe um ouro reluzente, um amarelo celestial que sombreava o horizonte, descendo muito lentamente até as copas das árvores. 
 E assim, fui adormecendo, entressonhando, até que chegou a hora de dormir de verdade. E quando, no dia seguinte, o diretor me pediu a sisuda argumentação, não pude menos que perguntar: 

 - Que artigo? Que crônica? 

 E ninguém pôde explicar ao diretor, porque ninguém sabia, da profundidade e da minha real perplexidade, ao comprovar, em meio à natureza florescente e túrgida, a existência de algum político corrupto que ficou sem seu justo castigo, tão somente porque o desastrado jornalista perdeu-se a olhar o céu da tarde sobre a praça.


Original "El desconcierto", publicado em Poemas de Malvín, Ediciones Del Angel No, Montevideo, 1967. 

 Tradução ao português Lota Moncada, 2012.





2 comentarios:

Nilo Dörr dijo...

Gosto de ler isso, Lota.

Anónimo dijo...

Obrigado por resumindo-o tão bem. Eu acho que vou estar voltando aqui muitas vezes. Atenciosamente.