29 jul. 2014

A viagem - Lota Moncada

Olho. A cidade me devolve
silêncio, banalidade.
Vou ao espelho, sem brilho,
não reconheço o que vejo.
Antropofágica me engulo,
nem mastigo na busca
insana do que aniquila
e resgata, arranca do casulo.

Onde a personagem, a forte,
a intensa, a falsa calma?
Entre estômago e pulmão,
ou enredada na traqueia,
mal respirando, ofegante,
debatendo-se entre as veias?

Tento, aflita, achar a alma
que desliza pelas vértebras
- nunca depressa o bastante -
se ocultando de fibra em fibra
nesse agoniante vagar.

Percebo um coração fatigado
- apenas corado, um nada -
se forçando a continuar.
Tanto o amor bateu na aorta...
Ah, Drummond, quem me dera
e ele batesse à porta!

Alpinista de garganta, contracorrente
escorrego, arrisco, nada adianta.
Numa ânsia regurgitada me entrego
- toda viagem tem prazo e preço -
alma sem palavras, extraviada,
não rima, não tece prosa, nem verso.

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