4 dic. 2014

Ouso me olhar - Lota Moncada

Hoje, a paz veio me abraçar.
E uma aragem me despenteia e 
arranca do meu miúdo silêncio.

 Aprendi a ameigar, abrandar 
até quase desaparecer. 
No entanto, cresço, corro,
voo, chego, e fico. 
Visto a roupa da coragem, 
porque é preciso, só sendo aluado,
um tanto doido, desatinado, 
para se olhar de frente, e se ver. 
Para achar onde pousar a vertigem, 
a adrenalina desbordada, tanta vida 
maltrapilha, tanta ferida sangrada. 

Noiva do vento descubro-me ar, 
que me expira e te inspira, 
que filtra a existência e te penetra, 
me respira, me pulsa e te prenuncia, 
no precioso ato de sorver a vida. 

Sou a musa do olhar, a espada do encanto, 
a atriz da fábula sem fala, a bruxa do conto. 
Sou a que teme, mas chega. A alma que vem 
e a que foge, aquela que se enrola no teu sopro,
te despe e, arrebatadamente, te toma e se dá. 

 Tão-somente porque ouso me olhar.

Nemesio Antúnez ( Chile 1918 - 1993)

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