15 feb. 2016

Um bom momento pra chorar - Lota Moncada


Era um bom momento para chorar. Sábado, de noite, triste e só. Por que não?

Mas antes, como sou prática e antiga, apegada a alguns rituais, passei a mão no "Manual de instruções" (sim, eu leio sempre Cortázar, ele praticamente não sai da minha cabeceira!), e procurei as “Instruções para chorar”. 
Logo no início, peremptório, diz: 

“Deixando de lado os motivos, atenhamo-nos à maneira correta de chorar, entendendo por isto um pranto que não ingresse no escândalo, nem insulte o sorriso com sua paralela e torpe semelhança.”

Quase desanimo. Sou de poucas lágrimas, mas se abrir os diques que represam minhas mágoas, não tenho como não soluçar convulsivamente, e até, emitir pequenos – ou nem tanto – gritos de franca desesperança. 
E segue: 

“O pranto médio, ou comum, consiste numa contração geral do rosto e um som espasmódico acompanhado de lágrimas e ranhos, esses últimos ao final, pois o pranto acaba no momento em que alguém se assoa energicamente.” 

Tentei seguir ao pé da letra as instruções - com a idade vou ficando mais rigidamente apegada a regras, uma espécie de “colete salvavidas” numa sociedade cada vez mais caótica e em luta consigo mesma por uma diversidade que já era natural no tempo de Adão, Eva e a Serpente. Ah sim, e tinha Deus também! Todos diferentes (e em quase-paz) embora ainda se insista naquilo de <à minha imagem e semelhança>.

 Assim, comecei por contrair meus músculos faciais, todos de uma vez, e deixei escapar o que me pareceu um estertor, mas que pretendia ser um “som espasmódico”. 
O estertor provinha de uma "dor espasmódica", já que na tentativa de contrair  os músculos da face, consegui uma cãibra na bochecha esquerda! 

Não preciso dizer que nem uma lágrima surgiu, muito menos ranhos - esta é a parte boa! 
A falta de exercício, quando menos social, dos músculos do rosto e o fato de estar a maior parte do tempo encerrada em casa com o meu trabalho, me tornaram, praticamente, uma sedentária facial! 
Mas, como sou teimosa e antes que o meu bom momento para chorar fosse embora, decidi partir para a terceira sugestão, sem tanto exagero muscular. 

“Para chorar, dirija a imaginação para si mesmo, e se isto lhe resultar impossível por ter contraído o hábito de acreditar no mundo exterior, pense em um pato coberto de formigas ou nesses golfos do estreito de Magalhães nos quais ninguém entra, nunca.”

Lembrei de uns exercícios de sensibilização, dos que a gente faz nos cursos de teatro, e bem acomodada na minha poltrona (não se trata de sofrer mais do que o necessário!) e com um espelho à minha frente para poder apreciar o progresso - sem ter que apelar para a imaginação - voltei meu olhar mais objetivo para mim mesma, para o meu rosto, que digamos, é uma parte bem aparente de mim mesma. 

Confesso que senti um prenúncio de nó na garganta. Então isso é o tempo? A passagem do tempo? 
Um olhar meio sem brilho, cansado; na pele pequenas manchas adquirindo volume, se espalhando por aí; algumas marcas perto dos lábios, as quase imperceptíveis, dizem  (e por que as estou vendo então?), rugas de expressão...
Senti meu objetivo olhar embaçar e um líquido lento e morno coreografar uma rota de fuga.   

Um esgar, apenas percebido, me contraiu a face e tateei o peito em busca dos óculos (mais um sinal do tempo!), tentando me convencer de que o escurecimento repentino da visão era devido a sua ausência. Mas não estavam lá. 
Então, aproveitando o ataque de compaixão que estava me afogando, mais o fato de ser sábado, de noite, estar triste e só, “cobri o rosto com decoro, usando ambas as mãos, com as palmas viradas para dentro” e chorei, copiosamente, “em média, três minutos”.

Francamente Cortázar, será que o pato coberto de formigas ou os golfos do estreito de Magalhães teriam causado o mesmo efeito?




*Os trechos entre aspas são de "Instruções para chorar" parte do conto "Manual de instruções" de Julio Cortázar publicado no livro "Historias de cronopios y de famas" (Alfaguara-1962). 
A tradução (livre) ao português é minha.

2 comentarios:

Naná Ribeiro dijo...

Que fantástico surrealismo com o surreal de Cortázar!Parabéns, Adorei!!!
Beijos

Lota dijo...

Obrigada Naná Ribeiro, achei que você ia gostar, nem que fosse pelo Cortázar!! :)